“Nós nunca nos preocupamos com o sucesso,” diz o
baterista do Green Day, Tré Cool, relembrando das primeiras turnês
da banda. “Estávamos apenas a procura de locais para fazer
shows. Não nos preocupávamos com o número de pessoas que pudesse
aparecer ou o quanto iríamos ganhar. Acho que isso foi a chave, o
que nos ajudou a ter longevidade e acho que esta é a razão de
estarmos aqui hoje.” Longevidade e punk rock têm sido dois
conceitos mutuamente exclusivos. Não apenas o Sex Pistols se
destruiu após apenas um álbum, mas a sua crença “sem
futuro” similarmente serviu para lendárias bandas punks como
The Clash, The Jam, Dead Kennedys, Black Flag, Minor Threat e
Hüsker Dü, nenhuma das quais chegou aos dez anos de existência. E
enquanto bandas punks originais da leva de ’77 como The
Damned e os Buzzcocks (sem mencionar duas do lado americano como
Bad Religion e Rancid) se esforçam para manterem-se ativas hoje em
dia, apenas poucas podem argumentar que seus novos esforços são
superiores ao seu antigo e mais influente material. Idem para os
Ramones, lamentavelmente, que terminou sua carreira 11 anos após o
lançamento de seu último ótimo disco Too Tough To Die, de 1985. O
Green Day, no entanto, não está só na ativa como melhor do que
nunca. Alguns 17 anos após o lançamento do seu primeiro EP, o vinil
“1,000 Hours” e 11 anos após “Dookie” ter
explodido no mainstream, a banda está lotando estádios em suporte
ao álbum American Idiot, o melhor álbum de sua carreira, até hoje.
Um protesto conceitual na veia de Tommy do The Who, Ziggy Stardust
de David Bowie e Zen Arcade da banda Hüsker Dü, o vencedor do
Grammy, American Idiot comunica efetivamente o desespero latente,
confusão e paranóia dos dias de hoje durante a era Bush II, mas
também demonstra Cool, o vocalista/guitarrista Billie Joe Armstrong
e o baixista Mike Dirnt elevando o nível de suas composições e
musicalidade, ao invés de apenas reinventar antigos hits como
“Basket Case”, “Longview” ou “Good
Riddance (Time Of Your Life)”. “Todos os meus heróis
fizeram álbuns monumentais que se transformaram em pontos de
referência em suas carreiras,” Armstrong explicou no verão
passado, um pouco antes do lançamento de American Idiot. “Eu
acho que, definitivamente, nós queríamos ter este tipo de
referência em nossa carreira, meio que criar este álbum monumental.
Queremos fazer parte da evolução do rock n’ roll, ponto
final.” Deixando de lado a imagem já conhecida do Green Day
como palhaços brincalhões que adoram maconha, o trio sempre foi
extremamente sério em elevar o nível do jogo a cada álbum lançado.
“Cada álbum que fizemos tem sido uma progressão,” diz
Dirnt. “Toda vez é uma experiência nova e excitante, mesmo
desde a época quando íamos ao estúdio gravar tudo ao vivo e então
depois gravarmos os vocais.” Quando Dirnt e Armstrong
começaram a tocar música juntos pela primeira vez nos anos 80, o
punk rock ainda não fazia parte da equação. Garotos de classe média
trabalhadora da cidade de Rodeo, ao norte da Califórnia, eles eram
obcecados pelo rock de arena que sobressaía na época. “A
gente ainda curtia heavy metal na época,” relembra Armstrong.
“A gente tocava Ozzy, AC/DC, Kiss e tal.” “Eu me
lembro de Billie tocando Diver Down do Van Halen para mim,”
diz Dirnt. “Eu nunca tinha ouvido Van Halen até então, e para
mim foi tipo “Whoa!” Mas uma vez que Dirnt e Armstrong
começaram a se aventurar cerca de 20km até a cidade universitária
de Berkeley, os sons crus e mais poderosos do punk começaram a
substituir a sua paixão pelo metal. “Eu acho que foi no verão
antes do primeiro colegial que começamos a assistir os nossos
primeiros shows e começamos a ser influenciados pelo punk
rock,” diz Armstrong. “Nós íamos na Rasputin Records em
Berkeley. Eles tinham uma coleção de punk rock enorme e começamos a
conhecer essas pessoas, uns loucos, artistas, caras criativos, e
punks e fomos mergulhando cada vez mais fundo nisso.” Na
época, o centro da cena punk de Berkeley era um clube conhecido
como Gilman Street, que acabou se tornando o lar-doce-lar longe de
suas casas para Armstrong e Dirnt. “Minhas bandas favoritas
de todos os tempos costumavam tocar lá, erma bandas locais como
Operation Ivy, Crimpshrine, Sewer Trout, Neurosis, Isocracy e
Corrupted Morals,” diz Armstrong. “Você tinha que ter
uma carteirinha para entrar e a atitude do local era
‘Proibido Brigas! Proibido Bebidas! Proibido Racismo!
Proibido Sexismo!’. Existia muitas nuances políticas em torno
do clube e eles tinham muitas mostras excelentes de música e arte e
us grafites irados nas paredes. Era um lugar com o qual nos
identificamos e crescíamos como indivíduos ali.”
“Definitivamente era o lugar para irmos sempre, toda
hora,” diz Cool. “Você sempre podia ir ao Gilman. Mas
éramos meio mimados na Bay Area, pois naquela época era possível ir
á tantos shows em qualquer noite na semana. Em qualquer noite
teríamos, por exemplo, umas 30 bandas tocando.”
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